domingo, março 25

Confissões em jeito de diário

Comecei a praticar ioga há cerca de 14 anos. Agora estou sem aulas outra vez. Há semanas que não faço um asana e as costas estão a pedir.

Olho para os meus livros de ioga. Tenho livros fantásticos. Amanhã vou colocá-los numa pilha para ver se já atinge a minha altura.

Talvez devesse doá-los a uma biblioteca?!
...
O desapego ainda não é assim tanto.
Por enquanto.
:o)

Citações

'Há metafisica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

«Constituição íntima das cousas»...
«Sentido íntimo do Universo»...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora. '

A. Caeiro in O Guardador de Rebanhos
'A água refulge na tina e fica escura no mar.
A verdade mesquinha tem palavras de luz; a grande é toda silêncio.'
R. Tagore

sábado, março 24

Limitada humanidade

'Ah, quanta vez, na hora suave
em que me esqueço,
vejo passar um voo de ave
e me entristeço!

Porque é ligeiro, leve, certo
no ar de amavio?
Porque vai sobre o céu aberto
sem um desvio?

Porque ter asas simboliza
a liberdade
que a vida nega e a alma precisa?
Sei que me invade

um horror de me ter que cobre
como uma cheia
meu coração, e entorna sobre
minh'alma alheia

um desejo, não de ser ave,
mas de poder
ter não sei quê do voo suave
dentro em meu ser.'
F. Pessoa

Como aquele obscuro escriturário que guardava rebanhos fora de horas (salvas as devidas distâncias, é claro) sento-me a olhar o voo das aves e o abrir das flores.

Porque é característico do ser humano:
  • o ser limitado
  • o ser parcialmente cego e adormecido
  • procurar
  • ...

quinta-feira, março 15

Relaxamento

Depois de algumas semanas de stress, de coisas a fazer para ontem, qualquer tentativa de meditação acaba num turbilhão de pensamentos que se afogam num poço de sono. Não é fácil, quando se é principiante.

Por isso sento-me por momentos, de olhos abertos, contemplando com ar pateta a tarde de quase Verão.
As flores que aparecem por todo o lado abrem-se em mandalas de significado incerto.
Os pássaros entoam hinos ao amor e os insectos inventam mantras na sua procura aérea de significado para o dia.

Lentamente a respiração vai-se afundando e o relógio interno parece finalmente conseguir acertar-se.
Não é a mesma coisa, eu sei. Mas sabe tão bem!

quinta-feira, março 8

Sortudos

Porque são simples, límpidos e efémeros...
... e não se preocupam nada com isso!