quarta-feira, janeiro 24

Silêncio

O silêncio! Que contém toda a sabedoria, toda a paz, todas as palavras necessárias.

Que embala a dor dos dias vazios e a transforma em suaves ondas navegáveis.

Se eu fosse sábia diria apenas coisas simples, úteis e belas: como se faz um bom chá, como se planta uma planta de modo que as suas raízes entrem fundo na terra. De que cor estava o céu hoje.
Seria feliz assim.
Um dia, talvez...

Encontro amigos, companheiros do silêncio pelo caminho. Fazem-me pensar que não estou só.
Que somos muitos, apesar de tudo. Que um dia, talvez, sejamos capazes de viver apenas com as coisas simples, úteis e belas...


Dedicado aos meus companheiros do silêncio...

quarta-feira, janeiro 10

Caminho do meio

'...se uma corda estiver demasiado solta não toca, se estiver demasiado esticada parte'

Quem toca instrumentos de corda sabe que é necessário afinar frequentemente as cordas. O uso e as variações climáticas alteram a afinação. É frequentemente necessário esticar ou soltar um pouco as cordas para que a afinação se mantenha perfeita. Uma pequena variação e perde-se a afinação, e no conjunto as cordas perdem a harmonia.

No ano do centenário de nascimento de Lopes Graça são frequentemente relembradas as suas 'Canções Heroicas'. Não tenho memórias dos tempos em que foram mais conhecidas e divulgadas. Para quem sejam caros os princípios da não violência, tornam-se difícieis de interpretar, de interiorizar o seu espírito. Apesar de defenderem ideais, soam duras, tensas, extremas...

'... O vento da nossa fúria queime as searas roubadas; e na noite dos ladrões haja frio, morte e espadas. ...' (Mãe Pobre)
'... é de aço esta fúria que nos move...' (Jornada)

O povo português é tido como um povo de brandos costumes. Por vezes laxista. Uma corda demasiado solta. Tenho pensado que talvez de tempos a tempos isso gere injustiças e uma reacção violenta. Épocas conturbadas, ideais extremados, canções heroicas com um travo de dureza. Cordas esticadas em risco de partir.

Segundo os princípios da não violência, a violência gera violência. A injustiça gera injustiça. Tentar resolver problemas pela violência gera mais violência, como tem demonstrado a história internacional recente. São formas superficiais de abordar as coisas. Fáceis e cómodas. Mas também enganadoras. Gerando ciclos intermináveis de violência.

Para manter a harmonia é necessário um trabalho constante de afinação, para os indivíduos e para os grupos. Constante, atento e profundo. O caminho mais difícil. O caminho da compreensão e da tolerância, da compaixão, mas também da firmeza. Uma corda afinada.