domingo, dezembro 31

Caminhando

É um lugar comum interessante, comparar o nosso percurso a um caminho.

Um caminho tantas vezes revestido de pedras ásperas, cheio de curvas obscuras. E frio, muito frio. Às vezes. E às vezes não.

Um caminho onde constantemente nos encontramos em encruzilhadas e temos que escolher. E cada escolha tem o seu quê de mau e de bom, de positivo e negativo. Às vezes mais um, outras vezes mais outro.

Há alguns anos começou a tornar-se evidente para mim que os caminhos têm padrões. Padrões no seu próprio traçado, mas sobretudo padrões nas escolhas que fazemos, na forma como o fazemos. Nos erros que cometemos, uma e outra e outra vez...

Suponho que são esses padrões que os indús e os budistas chamam de karma. Padrões que fazem parte de nós, da nossa maneira de ser, mas também que aprendemos com o grupo familiar, a comunidade, a cultura. Dos quais nos custa tanto a libertar.

Fazer este caminho sem obscuridade, com uma visão clara, parece ser uma via de libertação.

Há muitas formas. Mas, sem ser budista, com o budismo sinto-me bem. Uma forma simples de resolver a complexidade. Uma forma completa de integrar o mundo à minha volta. Humana, mas integral. Tornando parte do caminho a humanidade, os animais, as plantas, o vento, o sol e a noite. A terra e a água. Todos. Nós.

EROS E PSIQUE

'Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra a hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.'

F. Pessoa

sexta-feira, dezembro 22

Festejando

O nascer, o renascer. A expansão que a Natureza prepara no seu novo ciclo de crescimento. O sol que voltará após a noite. A esperança, a vida. O amor que se deseja infinito.

Aqui nasci e cresci. Aqui aprendi a festejar agora.

Que a esperança renasça, agora e todos os dias.

terça-feira, dezembro 5

Liberdade

Imagino o fim da meditação como um imenso espaço de liberdade. Onde nós deixamos de ser nós e nos fundimos com o universo. Onde nos libertamos do nosso ego.
O ego, aquela camisa de forças que trazemos colada à pele. Transporta todas as nossas inseguranças, desde o princípio dos tempos, todos os medos, todos os apegos. Faz-nos pequenos, limitados.
Humanos. É essa a nossa natureza humana. Tão cheia de limitações e de potencialidades.
Às vezes durante a meditação consigo olhar para ele. Coloco-o numa caixinha ao meu lado e pergunto-me para que preciso dele. Ele volta, ele sempre volta, e eu esqueço-me que ele está lá. Que me tolhe os passos, que não me deixa olhar dentro dos olhos dos meus irmãos.
Até à próxima. Até um dia, em que vou ser livre.