quarta-feira, novembro 22

Dias de sol e dias de chuva

Há dias de sol e dias de chuva. É dos dias de sol que gostamos, mas são os dias de chuva que nos fazem procurar.

Às vezes parece não haver explicação para eles - os dias tristes. Parece não haver necessidade, ou razão, ou justiça para a sua existência. Nós, os ocidentais educados ou influenciados pelo cristianismo, vivemos na ilusão de que a vida poderia ser perfeita. E como não é, as coisas tornam-se por vezes bastante frustrantes. Sonhamos com um paraíso, que na realidade só nos é prometido depois da morte. E culpamo-nos porque não o temos agora. A nós, aos outros...

Dizem que Buda meditou durante dias sob uma árvore até chegar às Quatro Nobre Verdades do budismo:

  • o sofrimento (insatisfação, desajuste) está omnipresente em todos os aspectos da vida
  • a origem do sofrimento é o apego (desejo)
  • a forma de cessar o sofrimento é perceber a sua origem e cessá-la
  • o desapego cultiva-se pelo Nobre Caminho Octópulo (compreensão correcta, pensamento correcto, fala correcta, acção correcta, modo de vida correcto, atenção correcta, consciência correcta, meditação correcta)
Seria melhor assim, aceitar a existência dos dias de chuva...
Se eu pudesse

'Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe uma paladar,
Seria mais feliz um momento ...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja ...'

Alberto Caeiro

quinta-feira, novembro 16

Terceiro

Mas ao escrever acaba-se o silêncio...

Pensamentos, palavras, são formas de romper o silêncio. Vivemos todas as horas do dia imersos em sons, palavras, ruídos, pedaços de informação. Por todo o lado. Até a música se torna ruído de tão insistentemente presente. Mesmo no silêncio do som vivemos imersos em pensamentos.

Parar um pouco é como um bálsamo. Para mim, principiante em meditação, é extremamente difícil acalmar os pensamentos por momentos sem adormecer. E no entanto a experiência de os observar é já em si um factor de calma. Proporciona perspectiva sobre estes e o que os motiva, sobre as emoções subjacentes à maioria das nossas atitudes.

Continuo a pensar porque criei este blogue. O que serve, a quem serve? Dizem que Buda pregou durante 40 anos e no fim concluiu que não teria sido necessária uma só palavra. Eu tenho necessidade de palavras. Se estas servem para alguma coisa, para mim, para outros, não sei.

segunda-feira, novembro 6

Segundo

Ninguém aqui...
Silêncio absoluto...
Um livro em branco, um blogue em branco.

Há tempos ensinaram-me a meditar. Ou melhor, ensinaram-me como se medita. E para quê.
A mente em silêncio, o coração calmo, respirando apenas.

Gosto disso. Do silêncio, de me sentar no chão e por momentos colocar de lado toda a confusão.
Respirar, regressar ao básico, ignorar o supérfulo, o barulho de fora e de dentro. E esperar o florescimento de uma flor de lótus.

Primeiro

Começando caminho na senda blogosférica ...